A Morte de Sócrates: Por Que o Filósofo Foi Condenado?
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Em 399 a.C., um tribunal em Atenas, o berço da democracia, selou o destino de um de seus cidadãos mais notórios. Sócrates, um filósofo que moldou o pensamento ocidental sem jamais ter escrito uma linha, foi sentenciado à morte. A imagem de um homem de 70 anos, condenado por suas ideias, atravessou os séculos como um símbolo da tensão entre o indivíduo e o poder. Mas o que realmente levou a cidade a exigir que ele bebesse um cálice de cicuta? A resposta está no turbulento cenário político e religioso da Atenas pós-guerra, onde o medo e a desconfiança abriram caminho para uma das acusações mais famosas da história.

Por que Sócrates foi condenado à pena de morte?
A condenação de Sócrates não foi um ato isolado, mas o clímax de um período de profunda instabilidade em Atenas. A cidade havia acabado de sofrer uma derrota humilhante na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) para sua rival, Esparta, e vivenciado o breve e brutal regime dos Trinta Tiranos, apoiado pelos espartanos. Embora a democracia tivesse sido restaurada em 403 a.C., o clima era de suspeita. Figuras como Crítias, líder dos tiranos, e o controverso general Alcibíades, ambos do círculo socrático, haviam deixado uma marca de traição na memória coletiva.
Nesse contexto, Sócrates foi formalmente acusado de asebeia (impiedade) e de corromper a juventude. As acusações, apresentadas pelo jovem poeta Meleto com o apoio do influente político Ânito, eram graves. A primeira alegação sustentava que Sócrates não reconhecia os deuses da cidade e introduzia novas divindades. De fato, o filósofo falava de um daimonion, uma voz interior divina que o guiava, o que soava como heresia para os atenienses, que viam a religião como um pilar da ordem pública. A segunda acusação, a de corromper os jovens, era ainda mais perigosa, pois o ligava indiretamente aos desastres políticos recentes, sugerindo que seus ensinamentos minavam os valores tradicionais e a lealdade à democracia.
O julgamento e morte de Sócrates ocorreram, portanto, em um momento em que a sociedade ateniense buscava restaurar sua ordem e identidade, e o filósofo, com seu método implacável de questionar tudo e todos, tornou-se um bode expiatório conveniente para as feridas da cidade.
O que Sócrates falou sobre a morte?
Diante de um júri de 501 cidadãos, a defesa de Sócrates, imortalizada na Apologia de Platão, foi tudo, menos um pedido de clemência. Em vez de se mostrar submisso, ele reafirmou sua missão filosófica, declarando que "a vida não examinada não vale a pena ser vivida". Para ele, a morte não era um mal a ser temido, mas uma de duas possibilidades. Ou seria um sono profundo e sem sonhos, um estado de pura inconsciência e, portanto, ausência de dor; ou seria uma passagem para outro lugar, onde teria a oportunidade de continuar sua busca pela verdade ao lado de grandes poetas e heróis do passado.
Ele argumentava que um homem bom não pode ser verdadeiramente prejudicado, nem na vida nem na morte, pois sua virtude permanece intacta. Sua serenidade diante da sentença final não era um sinal de resignação, mas a expressão máxima de sua coerência filosófica. Ele não temia o que não conhecia e via o veredito não como uma derrota pessoal, mas como um erro de seus acusadores, que prejudicavam mais a si mesmos e à cidade do que a ele.
Por que Sócrates aceitou sua condenação?
A questão de por que Sócrates não fugiu da prisão, uma possibilidade que lhe foi oferecida por amigos ricos como Críton, é central para seu legado. No diálogo Críton, Platão descreve a recusa do filósofo em escapar. Sócrates argumenta que, tendo vivido sua vida inteira sob a proteção das leis de Atenas, seria uma traição desobedecê-las no final.
Para ele, fugir seria cometer uma injustiça em resposta a outra, algo que seu código moral proibia categoricamente: "nem fazer o mal nem retribuir o mal é jamais correto". Escapar confirmaria a acusação de que ele era um corruptor e um destruidor da ordem social, invalidando tudo o que defendera. Ao aceitar a pena, Sócrates escolheu a fidelidade a seus princípios e às leis de sua cidade, transformando sua execução em um ato final de ensinamento. A morte de Sócrates tornou-se, assim, um testemunho de sua integridade inabalável.
A Morte de Sócrates na Arte: O Quadro de Jacques-Louis David
A representação mais icônica do fim do filósofo não está em um texto antigo, mas em uma tela do século XVIII. O quadro A Morte de Sócrates, pintado pelo artista neoclássico francês Jacques-Louis David em 1787, é uma obra-prima que se encontra no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. A pintura captura o momento dramático em que Sócrates, sereno e altivo, estende a mão para pegar a taça de cicuta, enquanto continua a discursar para seus discípulos, que se desesperam ao seu redor.
A obra de David, embora historicamente imprecisa ao retratar Sócrates com uma beleza idealizada (as fontes antigas o descrevem como feio), cristalizou a imagem do filósofo como um mártir da razão e da liberdade de expressão, influenciando profundamente a percepção moderna de seu sacrifício.
Curiosidades
A figura de Sócrates é cercada de fatos singulares que revelam sua personalidade complexa. Apesar de sua imensa influência, ele nada escreveu; tudo o que sabemos vem dos relatos, por vezes conflitantes, de seus admiradores como Platão e Xenofonte, e até de seus críticos, como o dramaturgo Aristófanes. Fisicamente, ele estava longe do ideal de beleza grego. Fontes antigas o descrevem como um homem feio, com olhos saltados e nariz achatado, mais parecido com um sátiro do que com um herói, uma imagem que contrasta com as representações artísticas posteriores. Antes de ser um mestre do diálogo, Sócrates foi também um soldado, um hoplita que serviu com bravura notável em batalhas como a de Delium. Sua execução também teve uma particularidade: foi adiada por cerca de 30 dias devido a uma tradição religiosa que proibia execuções enquanto um navio sagrado estivesse em sua viagem anual a Delos, um período que ele usou para suas últimas conversas filosóficas com seus discípulos.
Referências
O que você faria no lugar de Sócrates: aceitaria a sentença ou escolheria o exílio para continuar sua obra em outro lugar?
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