A Cidade Silenciosa: Ecos da Primeira Fundação de Buenos Aires
- 1 de fev.
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O ar de fevereiro de 1536 soprava uma promessa de futuro nas velas da frota espanhola. Ancorada nas águas barrentas do Rio da Prata, a expedição comandada por Don Pedro de Mendoza, um nobre de Guadix que carregava nos ossos a herança das campanhas italianas e a sombra de uma doença que o consumia lentamente, buscava um lugar para fincar a bandeira do Império. Ali, na margem direita do grande estuário, sob um céu vasto e indiferente, nasceria um assentamento batizado com a fé e a esperança de seus fundadores: Nuestra Señora Santa María del Buen Aire. Era um nome que evocava proteção e bons ventos, um desejo de permanência em uma terra que se revelaria muito mais complexa do que os mapas podiam prever.

O Sonho Desfeito na Margem do Prata
A expedição, composta por cerca de dois mil homens, trazia consigo o sonho de encontrar riquezas que rivalizassem com as do Peru, mas encontrou uma planície implacável e um povo que não se curvaria. Os querandis, habitantes nômades daquelas pampas, a princípio ofereceram peixe e farinha, um gesto de boas-vindas que logo se transformou em desconfiança. A terra, embora fértil, resistia aos cultivos europeus, e a fome começou a se instalar no acampamento espanhol como uma névoa fria. As paliçadas de terra, erguidas com esforço, desmanchavam-se com a chuva, como se a própria natureza se recusasse a abrigar os recém-chegados.
O cronista Ulrich Schmidl, um mercenário alemão que integrava a expedição, deixou um relato visceral da miséria que se abateu sobre a colônia. Em suas palavras, a fome atingiu proporções inimagináveis, um horror que a civilização europeia mal podia conceber. "Chegou-se a tal ponto", escreveu ele, "que não se encontravam mais nem ratos, nem camundongos, nem cobras... para saciar a fome". A loucura da inanição levou homens a comerem os sapatos e o couro das vestimentas. Em um dos episódios mais sombrios, três espanhóis que roubaram e comeram um cavalo foram condenados à forca. Na mesma noite, outros, movidos pelo desespero, cortaram pedaços dos corpos dos enforcados para sobreviver. Schmidl narra, com uma clareza assustadora, que um homem chegou a comer o próprio irmão, morto pela fome.
O Abandono e o Longo Silêncio
Os ataques dos querandis tornaram-se incessantes, e a cidade sonhada virou uma prisão de fome e medo. Em 1537, um Pedro de Mendoza doente e desiludido, vendo seu projeto de conquista se transformar em um pesadelo, decidiu retornar à Espanha. Não completou a viagem. Morreu em alto-mar, e seu corpo foi entregue às águas do Atlântico, o mesmo oceano que o trouxera com tantas esperanças. O assentamento de Nuestra Señora Santa María del Buen Aire resistiu por mais quatro anos, um espectro de si mesmo. Em 1541, os poucos sobreviventes tomaram a decisão final: abandonar a cidade fantasma e subir o rio em direção a Asunción, um refúgio mais seguro e próspero no coração do continente.
O local da primeira fundação foi deixado para trás, e as fontes divergem sobre seu fim. Alguns dizem que os próprios espanhóis o incendiaram para que nada servisse aos inimigos; outros, que os querandis o destruíram. O que se sabe é que, por quarenta anos, a margem do Rio da Prata guardou apenas as cinzas e os ecos de um sonho fracassado. O vento bom que batizara a cidade agora soprava sobre ruínas, um silêncio que guardava a memória da fome, da violência e da fragilidade humana diante de uma terra indomável.
A Refundação de Buenos Aires e o Renascer das Cinzas
O silêncio foi quebrado em 1580. Vindo de Asunción, Juan de Garay liderou uma nova expedição, composta por colonos já nascidos na América, mais adaptados às condições do continente. Em 11 de junho, no mesmo local assombrado pela memória de Mendoza, Garay refundou a cidade. Desta vez, o nome foi outro: Ciudad de la Santísima Trinidad, e seu porto foi chamado de Santa María de los Buenos Aires. A segunda fundação de Buenos Aires foi um ato de teimosia e aprendizado. Garay e seus homens sabiam dos desafios, mas também conheciam o potencial estratégico daquele porto natural, uma porta de entrada e saída para as riquezas do interior.
Desta vez, a cidade fincou raízes. As terras foram distribuídas, o gado deixado para trás pela primeira expedição havia se multiplicado de forma espantosa, e as relações com os povos locais foram estabelecidas em outras bases. A cidade que morrera antes de nascer finalmente começava a respirar, destinada a se tornar uma das grandes metrópoles do mundo, mas carregando para sempre em sua alma o eco silencioso de sua primeira e trágica existência.
Se as águas do Rio da Prata pudessem guardar memórias, que histórias contariam sobre a cidade que viram nascer, morrer e renascer de suas próprias cinzas?
Referências
Encyclopædia Britannica. "Pedro de Mendoza."
Encyclopædia Britannica. "Buenos Aires - History."
Encyclopædia Britannica. "History of Argentina."
EBSCO Information Services. "Buenos Aires Is Founded."
German History Intersections. "The Campaign of Conquest in the Estuary of the Rio de la Plata (1536)."



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