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Os Primeiros Lampiões a Gás no Rio de Janeiro

  • 22 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Na noite de 25 de março de 1854, o Rio de Janeiro susteve a respiração. Às seis da tarde, a Rua do Ouvidor, o coração pulsante da capital imperial, foi banhada por uma luz que não provinha do sol nem das chamas trêmulas do óleo de baleia. Era uma claridade nova, constante e quase mágica, que nascia dos primeiros lampiões a gás da cidade e, com eles, de toda a América do Sul. A escuridão, antes senhora das noites e abrigo de perigos e mistérios, começava a ser domada por uma tecnologia que sussurrava a palavra "progresso". Era a luz do século XIX, com seu fôlego de carvão e ferro, projetando-se sobre as calçadas coloniais.


O feito, contudo, não foi um passe de mágica, mas o resultado de uma visão audaciosa. A empreitada foi conduzida pela Companhia de Iluminação a Gás, fundada pelo empresário brasileiro Irineu Evangelista de Souza, que anos mais tarde receberia o título de Barão de Mauá. O contrato, assinado em 1851 com o ministro da Justiça Eusébio de Queiroz, era um marco na modernização da infraestrutura urbana do Império. A escolha da Rua do Ouvidor para a estreia não foi acidental: era a vitrine da elite, o ponto de encontro de comerciantes, intelectuais e do poder. Iluminá-la era um gesto simbólico de civilidade e controle, uma nova forma de governar a cidade através da visibilidade. A luz tornava-se, sutilmente, vigilância.


Rua do Ouvidor iluminada pelos primeiros lampiões a gás no Rio de Janeiro em 1854, com transeuntes sob a luz amarelada.
Arte: SK

O Sussurro da Modernidade nos Lampiões a Gás


A chegada dos lampiões a gás marcou o início de uma nova rotina noturna. Cafés, livrarias e teatros, antes reféns da luz do dia, puderam estender seus horários, e a noite urbana deixou de ser domínio exclusivo de andarilhos e boêmios para acolher o burburinho das elites letradas. A figura do flâneur, o observador errante da cidade, encontrava ali seu palco ideal, caminhando sob o brilho amarelado que recortava as sombras dos edifícios. O Rio de Janeiro, aos poucos, despia-se de seu ar colonial para vestir-se de metrópole.


Contudo, essa modernização, como um feixe de luz, projetava também sua própria sombra. A claridade que banhava o centro não alcançava com a mesma intensidade os bairros periféricos e os morros que começavam a se desenhar na paisagem. A iluminação, assim, reafirmava o abismo social que já dividia o espaço urbano, um eco que ressoa até hoje nas discussões sobre o direito à cidade.


A Cidade como Espetáculo de Luz e Sombra


O advento da iluminação pública consolidou um novo regime sensorial. A cidade passou a ser vivida também pela estética da luz. A arquitetura, antes adormecida na penumbra, ganhava um relevo noturno, e os espaços públicos transformavam-se em palcos de uma sociabilidade vibrante. Artistas, cronistas e urbanistas do século XIX passaram a retratar a cidade como um espetáculo contínuo, uma dança de luz e sombra. A luz dos lampiões a gás era, portanto, mais do que uma inovação técnica; era uma nova linguagem que expressava uma visão de mundo, um desejo de ordem e de beleza.


A fábrica de onde emanava essa nova luz, a Usina do Aterrado, trazia em sua fachada uma inscrição em latim do poeta Horácio: Ex fumo dare lucem, "tirar luz da fumaça". A frase, de uma poesia quase industrial, capturava a essência daquele tempo: a transformação do carvão mineral em gás hidrogênio carbonado, um processo que, embora trouxesse a claridade, também deixava seus resíduos, para os quais Mauá determinou a abertura do Canal do Mangue em 1857. Em três anos, a rede já alimentava mais de três mil lampiões e chegava a mais de três mil residências, alterando para sempre a paisagem e a alma da capital.


Hoje, quando a noite cai sobre o Rio de Janeiro, as luzes que se acendem são outras, mas a memória daqueles primeiros pontos luminosos na Rua do Ouvidor permanece. Elas nos lembram de um tempo em que a noite começou a ser conquistada, e de que a luz, seja a gás ou de LED, nunca é apenas luz: é também uma escolha sobre quem pode ver e quem permanece na sombra.


Referências


  • Biblioteca Nacional do Brasil. "História e Memória | 1854: começam a funcionar os primeiros lampiões a gás no Rio de Janeiro."

  • Brasiliana Iconográfica. "As mudanças nas luzes da cidade do Rio de Janeiro."

  • Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. "A iluminação pública na Cidade do Rio de Janeiro."

  • Encyclopedia.com. "Mauá, Visconde de (1813–1889)."

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