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A Sombra de um Rei: A Lenta Agonia e Morte de D. João VI

  • 7 de mar.
  • 4 min de leitura

Em março de 1826, uma notícia atravessou o Atlântico com a lentidão de um navio à vela, carregando o peso de um império. No Palácio da Bemposta, em Lisboa, o rei D. João VI exalava seu último suspiro. Sua morte, ocorrida em 10 de março, não foi um evento súbito, mas o capítulo final de uma agonia que se desenrolava há dias, marcada por sintomas que deixavam um rastro de suspeitas no ar. No Brasil, a notícia só chegaria em abril, e o reconhecimento tardio revelaria mais do que a distância geográfica: exporia as fissuras de um império recém-dividido e o luto complexo por um rei que, embora distante, ainda projetava sua sombra sobre a nova nação.


O Brasil, nos primeiros anos de sua independência, viu-se obrigado a confrontar a memória do monarca que partira. Era preciso decidir o que fazer com o legado de um rei que já não era seu, mas cujo rosto ainda estampava as moedas e cujo nome batizava as instituições. A morte de um rei nunca é apenas o fim de um homem; é o fechar de uma porta para o tempo, um silêncio que se impõe sobre uma era.


Retrato de D. João VI, rei cuja morte em 1826 foi cercada por suspeitas de envenenamento por arsênico
Arte: SK

O Crepúsculo no Palácio da Bemposta


A agonia de D. João VI foi um espetáculo sombrio, documentado em 27 boletins médicos que tentavam traduzir em palavras a decadência de um corpo real. Tudo começou em 2 de março, com vômitos de bile. No dia seguinte, ao retornar de uma visita a Belém, seu aspecto era cadavérico, o rosto pálido com olheiras escuras, o corpo trêmulo e as pernas inchadas. A viagem, desaconselhada por seu médico, pareceu selar seu destino.


Nos dias que se seguiram, o rei alternou momentos de aparente melhora com ataques violentos. Após um almoço de frango assado, queijo e laranjas no dia 4, sua saúde desmoronou. Cólicas, vômitos e convulsões tomaram conta de seu corpo. No dia 6, já sem forças, recebeu os sacramentos e estabeleceu um conselho de regência liderado por sua filha, a infanta D. Isabel Maria. Depois, mergulhou em um estado de torpor que durou até o fim. Em 10 de março, às quatro e quarenta da tarde, após uma sequência de três “insultos nervosos”, seu coração parou. O corpo do rei não foi submetido a uma autópsia, um detalhe que alimentaria as sombras da suspeita por séculos.


Anos mais tarde, a ciência daria voz a essas suspeitas. Análises feitas em seus restos mortais revelaram uma quantidade letal de arsênico, confirmando a hipótese de envenenamento. A própria rainha Carlota Joaquina, em uma conversa com um embaixador, afirmaria que seu marido fora morto com “doses sucessivas de água tofana”, uma solução de arsênico. A morte de D. João VI, portanto, não foi apenas o fim de uma vida, mas um possível regicídio, um crime sussurrado nos corredores do poder.


O Eco da Morte de D. João VI no Brasil


Quando a notícia da morte de D João VI finalmente cruzou o oceano e aportou no Rio de Janeiro em meados de abril de 1826, o governo de D. Pedro I decretou luto oficial. As igrejas realizaram missas simbólicas, os sinos dobraram e os jornais publicaram obituários formais. Contudo, esse luto era atravessado por uma complexidade política inevitável. D. Pedro I era, ao mesmo tempo, Imperador do Brasil e, com a morte do pai, herdeiro do trono português, tornando-se D. Pedro IV de Portugal.


Essa dupla condição, a de um imperador brasileiro que era também rei de Portugal, era uma contradição que a independência não podia sustentar. O luto pelo pai era também o luto por uma unidade perdida, a utopia de um império luso-brasileiro que se desfazia no horizonte. Como poderia um só homem governar dois mundos que haviam escolhido caminhos opostos? A solução foi tão rápida quanto dramática. Em 29 de abril de 1826, D. Pedro outorgou uma Carta Constitucional a Portugal e, poucos dias depois, em 2 de maio, abdicou do trono português em favor de sua filha de sete anos, D. Maria da Glória.


Esse breve reinado, de março a maio de 1826, encapsula o dilema de um monarca dividido entre o velho império europeu e a nova monarquia tropical. Ele foi rei e filho, imperador e órfão, tudo ao mesmo tempo, um homem forçado a abdicar de uma parte de si mesmo para que o futuro do Brasil pudesse, enfim, se consolidar.


A Última Morada de um Rei


Ao contrário do que a memória popular por vezes registra, o coração de D. João VI não repousa na cidade do Porto. Esse destino foi o de seu filho, D. Pedro I, que em testamento pediu que seu coração fosse entregue à cidade como símbolo de sua gratidão. O corpo de D. João VI foi embalsamado e sepultado com todas as honras no Panteão da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Suas vísceras, onde o arsênico selou seu destino, foram depositadas em uma capela no mesmo mosteiro, um testemunho silencioso da trama que encerrou seu reinado.


A oficialização da morte de D. João VI no Brasil foi mais do que um ato burocrático. Foi um ponto de virada simbólico, o momento em que o país começou a se despedir dos últimos vestígios institucionais do Antigo Regime. Era o fim de uma longa transição, a resposta silenciosa a perguntas que pairavam no ar: como ser independente e monárquico? Como cortar os laços sem apagar a memória? Como honrar o pai sem trair o futuro?


Referências


  • Encyclopædia Britannica. "John VI - King of Portugal."

  • Encyclopedia of Latin American History and Culture. "João VI of Portugal (1767-1826)."

  • Parques de Sintra - Monte da Lua. "King Pedro IV - Chronology 1826."

  • Gomes, Marleide da Mota. "Dom João VI's death: convulsions and coma." Arquivos de Neuro-Psiquiatria, vol. 65, no. 4b, 2007.

  • RTP Ensina. "O assassinato de D. João VI."

  • Find a Grave. "João VI (1767-1826) - Memorial."

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