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O Dia do Comerciante: A História de Quem Construiu Civilizações

  • Foto do escritor: Sidney Klock
    Sidney Klock
  • 28 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Quando o Comércio se Torna Poesia


Há datas que celebram feitos. Outras, que homenageiam figuras. Mas há uma, marcada no calendário de julho, que honra uma vocação eterna: a de conectar mundos através da troca. No Brasil, o Dia do Comerciante, celebrado em 16 de julho, é mais que uma homenagem profissional. É um tributo à arte milenar de criar pontes entre culturas, ideias, objetos e pessoas.


E como toda ponte, essa história tem pilares profundos — que mergulham desde os portos fenícios até as ideias iluministas de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, Patrono do Comércio Brasileiro. Entre a necessidade e o sonho, o comércio traçou rotas, ergueu civilizações e esculpiu identidades.


Convidamos você a embarcar nesta jornada poética pela história do comércio. Uma travessia pelos séculos, guiada não apenas por moedas e mercadorias, mas por símbolos, encontros e transformações.


Cena onírica com navio fenício, feira medieval e porto brasileiro; luz dourada e estilo renascentista.
Arte: SK

Navegantes da Troca, Construtores de Civilizações


Desde as margens férteis da Mesopotâmia até os mercados vibrantes de Roma, o comércio se mostrou vital para a sobrevivência e expansão humana. Ainda entre 5000 e 4100 a.C., povos mesopotâmios trocavam excedentes de grãos e argila por metais e madeiras escassas em sua região. Nascia ali um gesto que seria repetido ao longo da história: dar para receber, oferecer para transformar.


Com os fenícios, o comércio atravessou mares. No Mediterrâneo entre 1500 e 300 a.C., suas embarcações transportavam muito mais que mercadorias: levavam também o primeiro alfabeto fonético do mundo, o mesmo que inspiraria a nossa linguagem escrita. As rotas não eram apenas comerciais — eram culturais.


Roma, por sua vez, transformou o comércio numa estratégia imperial. Suas vias, protegidas por legiões, permitiam que grãos da Sicília e especiarias da Índia encontrassem destino no coração do império. A lógica da integração econômica prenunciava, já naquele tempo, os contornos da globalização contemporânea.


Das Feiras Medievais à Economia da Cultura


Na Idade Média, o comércio revive em forma de feiras. As feiras de Champagne, Flandres, Veneza e Gênova eram mais que mercados: eram encontros de mundos. Nelas, as trocas se davam entre tecidos orientais e especiarias, mas também entre visões de mundo, costumes e crenças.


Esses mercadores itinerantes eram, de certa forma, artistas da convivência. Levavam consigo produtos, mas também canções, sotaques e narrativas. O mercado medieval se tornava um palco. Já o Renascimento consagrou o mercador como força criadora, ao lado do artista. Ambos eram figuras do Humanismo — o homem como centro do universo, seja no cálculo do lucro, seja no traço do pincel.


Na contemporaneidade, arte e comércio voltam a se encontrar, dessa vez em tensão. A indústria cultural, denunciada por Adorno e Horkheimer, transforma a arte em produto. Ainda assim, nasce a economia da cultura, que reconhece o valor simbólico das criações humanas. No Brasil, esse setor já supera a indústria automobilística, respondendo por mais de 3% do PIB.


José da Silva Lisboa e a Liberdade de Trocar


O comércio brasileiro, por séculos, esteve atado ao Pacto Colonial — sistema que reservava à metrópole portuguesa o monopólio das trocas. Isso começou a mudar em 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil. E mudou definitivamente graças ao pensamento visionário de José Maria da Silva Lisboa, o futuro Visconde de Cairu.


Formado em Coimbra, economista por convicção e jurista por ofício, Lisboa foi o conselheiro de D. João VI na decisão de abrir os portos brasileiros às “nações amigas”. Isso significava romper com o exclusivismo comercial de Portugal e inaugurar a primeira fase de autonomia econômica no Brasil.


Sua obra, Princípios de Economia Política (1804), foi pioneira em traduzir e divulgar as ideias de Adam Smith no mundo lusófono. Liberal na economia, conservador nos costumes e defensor da monarquia, Cairu era um homem do seu tempo — e além dele.


No século XX, outro nome marcante surgiu: João Daudt D’Oliveira (1886–1952), fundador do SESC e do SENAC. Ele entendeu que o comércio moderno precisava também formar, cuidar e educar. Suas instituições são, até hoje, pilares do bem-estar social no Brasil.


O Comércio Como Tecido da Civilização


O que diferencia o comércio da simples troca é seu potencial simbólico. Ele não apenas move bens, mas também move ideias, estilos, religiões e afetos. O mercado é, há milênios, um espaço de encontro. E é esse encontro que molda a cultura.


Das antigas rotas da seda às conexões digitais de hoje, o comércio revelou-se uma linguagem universal. Uma língua feita de gestos, acordos, olhares e rituais. Seja numa praça medieval ou numa loja online, há sempre uma dramaturgia invisível em cada transação.


A sociedade contemporânea continua refletindo essas raízes: quando compramos, muitas vezes buscamos pertencimento, identidade ou memória. Compramos símbolos. Trocamos significados.


O comércio é, assim, uma expressão profunda da condição humana gregária: nossa necessidade ancestral de encontrar o outro — e com ele, reconhecer a nós mesmos.


A Poesia que Habita os Mercados


Você já parou para pensar que, em cada feira, há um palco? Que em cada comerciante pulsa um contador de histórias? Em cada mercado, um teatro da vida?


Há quem veja o comércio como cálculo. Mas, por trás dos números, vivem sonhos. O sonho de alguém que criou, colheu ou produziu. E o de quem precisa, busca ou deseja.

Em cada transação, um poema não escrito.


"O comércio é a poesia da necessidade humana transformada em encontro, a prosa da economia transmutada em verso da convivência."


Referências


  1. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

  2. Biblioteca Nacional — Arquivo da Carta Régia de 1808

  3. Museu do Comércio e da Indústria de Lisboa

  4. “Princípios de Economia Política”, José da Silva Lisboa, 1804

  5. Dialética do Esclarecimento, Theodor Adorno e Max Horkheimer

  6. UNESCO — Relatórios sobre Economia Criativa

  7. Fundação SESC / SENAC — História Institucional

  8. “História Econômica do Brasil”, Caio Prado Júnior

  9. The Mediterranean in History, David Abulafia

  10. Museu Fenício de Tiro, Líbano

 
 
 

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