top of page

Qual a Origem da Festa Junina? Do Paganismo ao São João

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

No instante em que as primeiras fagulhas da fogueira sobem ao céu frio de junho, algo ancestral desperta na alma brasileira. O cheiro do milho assado, o som rústico da sanfona, os trajes de chita que dançam ao vento, tudo compõe um ritual que vai muito além da festa. É memória encarnada em celebração. A Festa Junina, com sua alegria tão brasileira, é, na verdade, uma linha do tempo em chamas, tecida com símbolos antigos, sincretismos astutos e apropriações culturais que a reinventam a cada ano.


Ilustração mostrando a origem da Festa Junina, com pessoas dançando quadrilha ao redor de uma fogueira sob um céu estrelado com bandeirinhas.
Arte: SK

Qual a origem da festa junina?


Muito antes de o Brasil existir ou de a festa ter um nome, povos antigos do Hemisfério Norte já celebravam o solstício de verão, o dia mais longo do ano, com rituais dedicados à terra e à fertilidade. A origem pagã da festa junina remonta a essas celebrações ancestrais, onde celtas, germanos e escandinavos erguiam fogueiras imensas para agradecer a luz solar e pedir abundância às colheitas . Dançar ao redor do fogo era uma forma de comunhão com o sagrado natural, um ato que simbolizava o poder do sol, a purificação e a continuidade da vida. Era uma festa cósmica, onde corpo e natureza se entrelaçavam em um rito de passagem solar .


Com o avanço do cristianismo, a Igreja Católica, percebendo a impossibilidade de suprimir tais festividades populares, optou por ressignificá-las. A partir da cristianização do Império Romano em 380 d.C., a antiga celebração pagã foi incorporada ao calendário litúrgico e batizada como “Festa Joanina”, em honra a São João Batista . A fogueira, antes um símbolo solar, passou a representar o anúncio de seu nascimento. Assim, a festa que celebrava a colheita e a fertilidade foi transformada em uma comemoração dos santos católicos .


Como a festa junina chegou ao Brasil?


A festa, já sincretizada, desembarcou no Brasil no século XVI, trazida pelos colonizadores portugueses . Aqui, encontrou um terreno fértil para uma nova transformação. O calendário coincidiu com o período de colheita de alimentos fundamentais para os povos originários, como o milho, que se tornou a base da culinária junina . A celebração europeia foi devorada e reinventada, num gesto antropofágico que misturou as tradições portuguesas com rituais indígenas e ritmos africanos, dando forma a uma festa genuinamente brasileira .


Quais são as tradições da festa junina?


As tradições da festa junina no Brasil são um mosaico de influências. A quadrilha, por exemplo, hoje um dos símbolos da festa, tem uma história fascinante. A história da quadrilha junina começa nos salões aristocráticos da França do século XVIII, com uma dança de corte chamada quadrille . Trazida ao Brasil pela corte portuguesa no início do século XIX, a dança foi rapidamente apropriada pelo povo, que a transformou. Surgiu o casamento matuto, os comandos foram abrasileirados com humor e os trajes luxuosos deram lugar à chita colorida. Em 2024, a quadrilha junina foi oficialmente reconhecida como manifestação da cultura nacional, um testemunho de sua importância e vitalidade .


As comidas típicas da festa junina e sua origem são outro pilar da celebração. Pratos como pamonha, canjica, curau e bolo de milho têm como base o grão que já era cultivado e consumido pelos povos indígenas muito antes da chegada dos europeus . A culinária junina é um símbolo da nossa miscigenação, unindo ingredientes nativos como o milho e a mandioca a técnicas e sabores trazidos por portugueses e africanos . As tradições da festa junina no nordeste são especialmente ricas, com festas que duram o mês inteiro em cidades como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE), transformando-se em megaeventos que celebram a cultura local com uma intensidade única .


Quais são os santos da festa junina?


A festa, em seu coração, ainda pulsa com a fé popular, homenageando três dos santos mais queridos do catolicismo. Santo Antônio, o casamenteiro, é celebrado no dia 13 de junho. São João Batista, o santo que dá nome à festa, tem seu dia em 24 de junho. E São Pedro, o guardião das chaves do céu, é homenageado no dia 29 de junho . Embora a Igreja tenha associado seus nomes à antiga festa pagã, a devoção popular conferiu a cada um deles um papel central nas simpatias, rezas e rituais que marcam o período.

Santo

Data de Celebração

Atribuição Popular

Santo Antônio

13 de Junho

Santo casamenteiro, protetor das coisas perdidas

São João Batista

24 de Junho

Santo festeiro, primo de Jesus que o batizou

São Pedro

29 de Junho

Guardião das chaves do céu, protetor das viúvas


Curiosidades


Você sabia que os famosos comandos das quadrilhas, como alavantú e anarriê, são heranças diretas do francês en avant tous (todos para frente) e en arrière (para trás)? São vestígios da dança aristocrática que, ao serem adotados pelo povo brasileiro, foram reinventados com humor e uma sonoridade própria. É a língua do povo transformando a elite em folclore, com um toque de festa e irreverência .


A Festa Junina, portanto, não é um resíduo do passado, mas um organismo vivo que pulsa com o presente. É a história que se conta ao redor do fogo, o corpo que dança uma memória, a comida que cura a saudade. A cada ano, ela reacende sua chama, nos lembrando que, em um país de tantas rupturas, há algo que permanece: a vontade de estar junto, de celebrar a vida com beleza, música e calor humano.


Referências



Qual a sua memória mais afetiva das festas de São João?

Comentários


bottom of page