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Quem Foi Joana d'Arc? História, Vozes e Fogueira

  • 28 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 12 horas

Há figuras que atravessam séculos como cometas, deixando rastros de luz e perguntas que a poeira do tempo não consegue apagar. Joana d'Arc, a Donzela de Orléans, é uma delas. Sua vida, embora breve, foi um clarão que redesenhou o mapa da França e inscreveu no imaginário ocidental a força do extraordinário. Entre a fé e o aço, entre a palavra dos escrivães e o silêncio do inexplicável, a verdadeira história de Joana d'Arc se revela nos documentos de sua época. Afinal, quem foi Joana d'Arc? A resposta começa nos registros de seus dois processos: o de Condenação em 1431 e o de Reabilitação em 1456. É nessa fricção entre o registro histórico e o mistério que o fascínio por ela se acende.


Ilustração de quem foi Joana d'Arc, vestindo armadura dourada e segurando uma espada, com pombas brancas ao redor
Arte: SK

Quem foi Joana d'Arc e o que ela defendia?


Joana d'Arc defendia uma causa que parecia perdida: a legitimidade do trono da França para o delfim Carlos VII, em um país devastado e dividido pela Guerra dos Cem Anos. No início do século XV, a França não era uma nação unificada, mas um mosaico de territórios disputados. Após a desastrosa batalha de Agincourt em 1415, a Inglaterra, aliada aos borgonheses, dominava o norte do país, incluindo Paris. O delfim Carlos, herdeiro deserdado pelo Tratado de Troyes, refugiava-se ao sul, com sua autoridade e esperança em declínio.


Neste cenário de fragmentação, a defesa de Joana era a restauração da soberania francesa sob a coroa de seu rei legítimo. Sua lealdade não era a um conceito abstrato de nação, mas a uma ordem divina que, segundo ela, lhe ordenava coroar o delfim e expulsar os ingleses. Ela defendia a crença de que a França tinha um destino sagrado e que sua missão era o instrumento para cumpri-lo. Sua luta, portanto, era tanto política e militar quanto espiritual.


Como Joana d'Arc ouvia vozes?


A questão de como Joana d'Arc ouvia vozes é o cerne de seu mistério e de sua força. Segundo seus próprios testemunhos, a primeira experiência ocorreu por volta dos treze anos, no jardim de seu pai em Domrémy, quando viu uma luz intensa e ouviu a voz de Deus. Com o tempo, essas vozes se identificaram como sendo do Arcanjo São Miguel, de Santa Catarina de Alexandria e de Santa Margarida de Antioquia.


No contexto da espiritualidade do século XV, a comunicação com o divino não era vista como uma anomalia. Como aponta a historiadora Corinne Saunders, o sobrenatural era parte da gramática do mundo medieval, e a experiência visionária era um fenômeno reconhecido, especialmente entre mulheres místicas como Hildegarda de Bingen e Juliana de Norwich. As vozes de Joana não eram caóticas ou destrutivas; pelo contrário, eram claras, consistentes e orientadoras. Elas lhe davam conselhos, revelavam eventos futuros e a instruíam em sua missão com uma precisão impressionante.


A historiografia moderna, como o estudo "Undiagnosing St Joan", evita aplicar rótulos psiquiátricos retrospectivos, argumentando que isso simplifica e distorce uma experiência profundamente inserida em seu contexto cultural e religioso. As vozes eram, para Joana e para muitos de seus contemporâneos, uma manifestação autêntica da vontade divina, que a capacitava a agir com uma autoridade e uma coragem que de outra forma seriam inconcebíveis para uma jovem camponesa.


Qual era a missão de Joana d'Arc?


A missão de Joana d'Arc, ditada por suas vozes, era dupla e incrivelmente audaciosa: primeiro, libertar a cidade de Orléans, que estava sob um cerco inglês desde outubro de 1428 e era a chave estratégica para o domínio da França. Segundo, levar o delfim Carlos para ser coroado em Reims, a cidade tradicional das coroações reais, que estava em território inimigo.


Com uma fé inabalável, ela convenceu o cético capitão Robert de Baudricourt e, posteriormente, o próprio delfim em Chinon. Em poucos meses, a camponesa analfabeta se tornou uma líder militar eficaz. Em maio de 1429, sua presença inspirou as tropas francesas a quebrar o cerco de Orléans em apenas alguns dias. Logo depois, ela liderou uma campanha vitoriosa ao longo do rio Loire, culminando na decisiva Batalha de Patay, que esmagou a reputação de invencibilidade do exército inglês. Em 17 de julho de 1429, Carlos VII foi finalmente coroado em Reims, com Joana a seu lado, segurando seu estandarte. A principal parte de sua missão estava cumprida.


O que aconteceu com Joana d'Arc?


Após a coroação, a trajetória de Joana entrou em uma fase mais sombria. Divergências com a corte e a hesitação do rei minaram seu avanço. Em 23 de maio de 1430, durante uma tentativa de defender a cidade de Compiègne, ela foi capturada por soldados borgonheses e vendida aos ingleses.


Levada a Rouen, centro do poder inglês na França, ela foi submetida a um longo e irregular processo eclesiástico, orquestrado pelo bispo Pierre Cauchon, um aliado dos ingleses. A relação de Joana d'Arc com a igreja se torna complexa aqui: ela foi julgada por um tribunal da Igreja, mas por motivos políticos. As acusações eram de heresia, bruxaria e de vestir trajes masculinos, uma afronta à ordem estabelecida. Durante meses, ela enfrentou seus interrogadores com inteligência e fé, mas o veredito já estava decidido.


Em 24 de maio de 1431, sob ameaça de morte, ela assinou uma abjuração, um documento em que negava suas visões. No entanto, poucos dias depois, ela se retratou, reafirmando a origem divina de suas vozes. Considerada relapsa, sua sentença foi selada. Joana d'Arc foi queimada viva? Sim. Em 30 de maio de 1431, na praça do mercado de Rouen, a jovem de 19 anos foi executada na fogueira.


O legado que o fogo não apagou


A história, contudo, não terminou nas cinzas. Vinte e cinco anos depois, um novo julgamento, ordenado pelo rei Carlos VII e autorizado pelo Papa Calisto III, anulou a condenação de 1431, declarando-a inocente e mártir. Séculos mais tarde, em 1920, a Igreja Católica a canonizou como Santa Joana d'Arc.


Sua espada, que segundo suas vozes foi encontrada enterrada atrás do altar na igreja de Sainte-Catherine-de-Fierbois, com cinco cruzes gravadas, tornou-se um símbolo de sua missão divina. A tradição também conta que seu coração resistiu às chamas, um último mistério em uma vida repleta deles. Para quem busca entender quem foi Joana d'Arc, a resposta é esta: de camponesa a comandante, de herege a santa, sua jornada continua a nos lembrar que o extraordinário pode, de fato, irromper no cotidiano, transformando para sempre o curso da história.


Referências


  • Phillips, J. et al. (2023). Undiagnosing St Joan: She Does Not Need a Medical or Psychiatric Diagnosis. The Journal of Nervous and Mental Disease, 211(8), 559-565.

  • Vale, M. G. A. (2026). St. Joan of Arc. Encyclopædia Britannica.

  • Linder, D. O. (s.d.). The Trial of Joan of Arc: An Account. Famous Trials, UMKC School of Law.

  • Saunders, C. (2016), citada em Phillips, J. et al. (2023). Undiagnosing St Joan. The Journal of Nervous and Mental Disease.

  • Saint-Joan-of-Arc.com. (s.d.). Her Sword. Baseado em transcrições do Processo de Condenação de 1431.


O que em sua trajetória mais lhe causa admiração: sua coragem militar, sua fé inabalável ou sua resiliência diante da injustiça?

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