Santos Dumont: O Inventor do 14-Bis, o Relógio de Pulso e a História da Aviação
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Na alvorada do século XX, enquanto a humanidade se maravilhava com a luz elétrica, um brasileiro franzino e de espírito sonhador redefinia os limites do possível nos céus de Paris. Alberto Santos Dumont, mais que um engenheiro, foi um poeta do ar, um homem que via em cada invenção uma estrofe de um poema maior sobre a liberdade humana. Para ele, a técnica era o meio, mas a transcendência era o fim. Este artigo explora a trajetória de Santos Dumont, o inventor que não apenas deu asas à humanidade, mas também nos ensinou a medir o tempo no pulso e a sonhar com os pés no chão.

O Primeiro Voo de Santos Dumont: Um Marco em Paris
A história da aviação moderna tem um capítulo fundamental escrito em Paris, no Campo de Bagatelle. Foi ali que, em 23 de outubro de 1906, Santos Dumont realizou o primeiro voo público homologado de uma máquina mais pesada que o ar. Diante de uma multidão e da comissão oficial do Aeroclube da França, seu 14-Bis, uma estrutura de bambu e seda impulsionada por um motor Antoinette, elevou-se aos céus. O voo percorreu 60 metros a uma altura de aproximadamente três metros, um feito que, embora modesto em distância, foi monumental em significado. Diferente de outras tentativas da época, a decolagem do 14-Bis ocorreu por meios próprios, sem o auxílio de rampas ou catapultas, e foi testemunhada, documentada e celebrada abertamente, estabelecendo um marco público e incontestável na história da aviação.
Menos de um mês depois, em 12 de novembro, no mesmo local, Santos Dumont superou sua própria marca, voando 220 metros em pouco mais de 21 segundos. Este segundo voo não apenas quebrou seu recorde anterior, mas também lhe rendeu o prêmio do Aeroclube da França, consolidando seu lugar como uma figura central na corrida pela conquista do ar.
Santos Dumont Inventou o Relógio de Pulso?
Sim, a invenção do relógio de pulso masculino moderno é diretamente atribuída à colaboração entre Santos Dumont e seu amigo, o joalheiro francês Louis Cartier. Durante seus voos pioneiros, o inventor enfrentava uma dificuldade prática: consultar o relógio de bolso tradicional enquanto pilotava suas aeronaves exigia que ele tirasse as mãos dos controles, uma manobra arriscada e impraticável.
Em 1904, Santos Dumont compartilhou esse problema com Cartier, que, inspirado pela necessidade do amigo, desenvolveu uma solução elegante e funcional: um relógio plano com uma moldura quadrada e uma pulseira de couro, permitindo que fosse usado no pulso. Esta criação não apenas resolveu o problema de Santos Dumont, mas também deu origem a um dos primeiros relógios de pulso projetados especificamente para homens. O modelo, batizado de "Santos", tornou-se um ícone de estilo e modernidade, associado ao espírito de aventura e inovação que o próprio aviador encarnava.
Quais Outras Coisas Santos Dumont Inventou?
A genialidade de Santos Dumont não se limitou à aviação. Sua mente inquieta e focada em soluções práticas resultou em diversas outras invenções e melhorias que demonstram sua visão à frente de seu tempo. Entre as curiosidades sobre as invenções de Santos Dumont, destacam-se criações que vão do conforto doméstico à infraestrutura aeronáutica.
Uma de suas contribuições mais notáveis foi o hangar com portas de correr. Para abrigar seus dirigíveis, que eram grandes e frágeis, ele projetou o primeiro hangar, uma estrutura alta e longa com portas que deslizavam sobre rolamentos, permitindo a entrada e saída das aeronaves com segurança e facilidade. Outra invenção que demonstra sua preocupação com o bem-estar foi o chuveiro de água quente. Em sua residência em Petrópolis, "A Encantada", ele projetou um sistema de aquecimento a álcool para a água do chuveiro, uma raridade e um luxo para a época no Brasil.
Além disso, a busca incessante de Santos Dumont pela otimização o levou a desenvolver um motor portátil para alpinistas e uma balança de precisão para pesar o combustível de suas aeronaves, garantindo maior controle e segurança nos voos. Até mesmo o termo "aeroporto" tem sua popularização creditada a ele. Essas invenções pouco conhecidas de Santos Dumont revelam um inventor multifacetado, cujo legado vai muito além do 14-Bis.
O Crepúsculo de um Visionário
A mesma sensibilidade que permitiu a Santos Dumont sonhar com o voo também o tornou vulnerável à dor de ver sua criação transformada em uma arma de guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, a utilização de aviões para bombardeios e combates aéreos o mergulhou em profunda tristeza. Acusado injustamente de espionagem, ele viu o sonho da aviação como um instrumento de união e progresso se converter em um pesadelo de destruição. Estudos póstumos sobre sua saúde mental sugerem que ele pode ter sofrido de transtorno bipolar, o que explicaria as oscilações entre a euforia criativa e a depressão profunda que marcaram sua vida.
Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista no Brasil, o som de aviões sobrevoando a cidade de Guarujá, onde se recuperava, foi o golpe final. Desolado ao testemunhar o uso de aeronaves em um conflito fratricida, Santos Dumont tirou a própria vida. O homem que ensinou o mundo a voar silenciava, deixando um legado complexo sobre a dualidade da invenção: a capacidade de elevar a humanidade e a responsabilidade sobre os caminhos que a tecnologia pode tomar.
Curiosidades
Dentro de uma esfera dourada, no Museu Aeroespacial, repousa seu coração. Suspenso em líquido conservante, parece ainda bater, como se recusasse a morrer. Não é só memória: é símbolo. Um lembrete visceral de que a beleza do sonho, mesmo quando ferida, ainda voa.
Referências
Crouch, T. D. "Alberto Santos-Dumont". Britannica.
Smithsonian National Air and Space Museum. "Alberto Santos-Dumont, Brazil".
Marcolin, N. "100 years in the air". Revista Pesquisa FAPESP, no. 128, out. 2006.
National Geographic Brasil. "150 anos de Santos Dumont: para além do avião, conheça outras invenções do 'Pai da Aviação'".
Barros, R. E. M., & De-Moura, F. F. "The bipolarity of Alberto Santos-Dumont: flights and falls of the ‘father of aviation’". Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 71(1 ), 61-68.
O que a história de Santos Dumont nos ensina sobre os limites éticos da inovação em nosso próprio tempo?



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