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O Crepúsculo de Septímio Severo: Um Império Deixado à Sombra de Duas Espadas

  • 2 de fev.
  • 4 min de leitura

O ar de Eboracum, a cidade que um dia se chamaria York, era denso e gelado em fevereiro de 211. Nos confins da Britânia, o Império Romano era governado a partir de um posto avançado, um lugar de névoa e pedra onde o imperador Septímio Severo, o primeiro soberano nascido em solo africano, sentia o peso de seus quase vinte anos de poder e a agonia da gota que lhe consumia os ossos. Nascido na ensolarada Leptis Magna, na costa da atual Líbia, ele agora se despedia da vida sob o céu cinzento do norte. Seus dias de campanhas implacáveis, de consolidação de fronteiras e de uma ascensão meteórica que o levou do anonimato provincial ao trono de Roma, chegavam ao fim.


Ao seu lado, estavam os dois pilares de sua dinastia, seus filhos Caracala e Geta. A eles, Severo deixou um último comando, uma frase que ecoaria como um testamento e uma profecia sombria: "Permaneçam unidos, enriqueçam os soldados e desprezem todo o resto." Naquelas palavras, ditadas pela pragmática brutalidade de um general que conhecia a natureza do poder, residia a esperança de um futuro estável e a semente de sua destruição.


Busto de mármore do imperador romano Septímio Severo, um homem com barba e cabelo encaracolados e uma expressão séria.
Arte: SK

O Peso de uma Herança Dividida


A morte de Severo, em 4 de fevereiro, não trouxe a harmonia que o velho imperador desejava. Caracala e Geta, elevados a co-imperadores, levaram para o coração do Palatino a rivalidade que os envenenava desde a infância. Roma, acostumada às intrigas do poder, observava com apreensão a fratura exposta no topo do império. O palácio foi literalmente dividido: cada irmão com sua própria guarda, suas próprias entradas, suas próprias alas. A cidade prendia a respiração, sentindo no ar a tensão que emanava daquela convivência forçada, um silêncio pesado que antecede a tempestade.


Júlia Domna, a imperatriz-mãe de origem síria, uma mulher de notável inteligência e cultura, tentou costurar a paz entre os filhos. Seus esforços, porém, se perdiam no abismo de ódio que os separava. Cada tentativa de reconciliação era um fracasso, cada encontro, uma nova demonstração de desconfiança. O império, que se estendia da Mesopotâmia à Britânia, era agora um reino de dois sóis que se recusavam a compartilhar o mesmo céu.


O Grito Silenciado no Palácio


A paz precária se estilhaçou no final daquele mesmo ano de 211. A história, contada pelo historiador Dião Cássio, que viveu aqueles tempos, assume os contornos de uma tragédia grega. Sob o pretexto de uma nova tentativa de reconciliação nos aposentos de Júlia Domna, Caracala executou seu plano. Geta, buscando refúgio, correu para os braços da mãe. Foi ali, envolto em seu abraço, que os centuriões de Caracala o apunhalaram.


O sangue do irmão mais novo manchou as vestes da imperatriz, que foi forçada a sufocar seu luto, proibida de chorar pelo filho que acabara de perder. O assassinato de Geta não foi o fim, mas o começo de um expurgo. Amigos, conselheiros, senadores e até cidadãos comuns que haviam demonstrado simpatia pelo príncipe assassinado foram caçados e mortos, um massacre que, segundo as fontes, pode ter vitimado vinte mil pessoas.


A Memória Condenada ao Esquecimento


Para Caracala, não bastava eliminar o irmão; era preciso apagar sua existência da própria história. Ele decretou a damnatio memoriae, a "condenação da memória", uma das mais terríveis sentenças romanas. O nome de Geta foi raspado de inscrições em pedra, seu rosto removido de relevos e suas estátuas, destruídas. O objetivo era criar um vácuo, um silêncio eterno em torno de seu nome.


Um dos mais impressionantes testemunhos dessa prática sobrevive até hoje: o Tondo Severano. A delicada pintura em madeira, uma espécie de retrato oficial da família imperial, mostra Septímio Severo e Júlia Domna com seus cabelos grisalhos, coroados e solenes. Ao lado deles, um jovem Caracala encara o observador. Onde deveria estar o rosto de Geta, há apenas um borrão escuro, uma ausência fantasmagórica, um grito visual que denuncia a tentativa de apagar o passado. A imagem, encontrada no Egito, é um poderoso lembrete de que a história é escrita pelos vencedores, mas as cicatrizes do que foi removido, por vezes, se recusam a desaparecer.


O Eco de Septímio Severo e a Queda de uma Dinastia


Com o poder absoluto em mãos, Caracala governou sozinho, obcecado pela figura de Alexandre, o Grande, tentando emular suas conquistas e seu gênio militar. Seu reinado, porém, foi marcado pela brutalidade e pela instabilidade que seu pai tanto temera. Em 217, durante uma campanha no Oriente, ele próprio foi assassinado, vítima de uma conspiração liderada por seu prefeito do pretório, Macrino.


Ao receber a notícia da morte de seu último filho, Júlia Domna, a mulher que vira um império nascer e se desfazer em suas mãos, escolheu o silêncio final. Recusando-se a comer, deixou-se morrer de inanição, encerrando sua jornada em meio às ruínas de sua família. A dinastia Severa, com suas raízes na África e na Síria, ainda sobreviveria aos tropeços até 235, mas o comando final de Septímio Severo, proferido na fria manhã de Eboracum, provou ser uma lição que seus filhos jamais aprenderam.


Quando a poeira da história assenta sobre as ruínas de Roma, que som é mais persistente: o da espada que constrói um império ou o do silêncio que apaga um irmão?

Referências


  • Encyclopædia Britannica. "Septimius Severus."

  • Encyclopædia Britannica. "Caracalla."

  • English Heritage. "Septimius Severus."

  • Smarthistory. "The Severan Tondo: damnatio memoriae in ancient Rome."

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