Sigmund Freud: Vida, Obra e as Ideias da Psicanálise
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"A voz do intelecto é baixa, mas não descansa até ser ouvida." - Sigmund Freud, O Futuro de uma Ilusão (1927)
Em uma era de certezas aparentes, um homem ousou perscrutar o que se escondia por trás do véu da consciência. Sigmund Freud (1856–1939), o fundador da psicanálise, não apenas propôs uma nova ciência; ele revelou um mundo interior, um território de desejos, memórias e conflitos que moldam silenciosamente quem somos. Sua obra, como uma sombra persistente, atravessa a medicina, a arte e a filosofia, convidando a uma escuta atenta dos sussurros que vêm das profundezas da mente.

A vida de Sigmund Freud: de Freiberg a Viena
Nascido Sigismund Schlomo Freud em 6 de maio de 1856, em Freiberg, Morávia, no Império Austro-Húngaro (hoje Příbor, República Tcheca), ele era filho de uma família de comerciantes de lã judeus. Aos quatro anos, sua família mudou-se para Viena, a cidade que se tornaria o palco de sua formação intelectual e da revolução que ele lideraria. Apesar de uma relação ambivalente com a cidade, marcada por um antissemitismo crescente, foi ali que Freud viveu e trabalhou por quase oitenta anos.
Inicialmente inclinado ao estudo do Direito, Freud foi inspirado por um ensaio de Goethe sobre a natureza e decidiu cursar Medicina na Universidade de Viena, graduando-se em 1881. Sua carreira inicial foi dedicada à pesquisa em neurobiologia. Um período de estudos em Paris, entre 1885 e 1886, com o neurologista Jean-Martin Charcot, mudou seu destino. As demonstrações de Charcot sobre a histeria e o uso da hipnose revelaram a Freud que certas desordens físicas poderiam ter origens puramente mentais, e não neurológicas.
O que é a psicanálise de Freud?
A psicanálise é um campo do saber e um método de terapia criado por Sigmund Freud para investigar a mente humana. Seu pilar fundamental é a ideia de que grande parte de nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos é determinada por forças que operam fora da nossa consciência: o inconsciente. Freud propôs que sintomas neuróticos, sonhos e até mesmo os pequenos erros que cometemos no dia a dia (os chamados atos falhos) são manifestações de desejos e conflitos reprimidos.
O tratamento psicanalítico, conhecido como "a cura pela fala", ocorre em um ambiente onde o paciente é encorajado a falar livremente sobre o que lhe vier à mente. O objetivo é trazer à tona esses conteúdos inconscientes, permitindo que a pessoa os compreenda e elabore, aliviando assim o sofrimento psíquico.
Como Sigmund Freud explica a mente humana
Para explicar a dinâmica da psique, Freud desenvolveu um modelo estrutural da mente, apresentado em sua obra O Ego e o Id (1923). Ele a dividiu em três instâncias que interagem constantemente:
O Id (Isso): A parte mais primitiva e instintiva da mente, fonte da energia psíquica (libido). Opera pelo princípio do prazer, buscando a satisfação imediata de todos os desejos e impulsos, como a fome, a sede e o sexo.
O Ego (Eu): O componente da personalidade responsável por lidar com a realidade. O Ego se desenvolve a partir do Id e busca mediar as exigências impulsivas do Id, as restrições morais do Superego e as demandas do mundo exterior. Ele opera pelo princípio da realidade, adiando a gratificação para evitar consequências negativas.
O Superego (Supereu): A instância moral da mente, que internaliza os valores e as proibições ensinados pelos pais e pela sociedade. O Superego busca a perfeição e nos julga através do orgulho ou da culpa. Ele representa nossos ideais e nossa consciência.
Para Sigmund Freud, a tensão constante entre essas três forças é o que define a experiência humana e pode levar a conflitos e ansiedade.
As principais ideias de Sigmund Freud
Além do modelo da mente, o pensamento de Sigmund Freud se sustenta em outras ideias revolucionárias. A teoria do inconsciente é central, postulando que a maior parte da vida mental ocorre fora da consciência. Outro conceito fundamental é o de que a sexualidade infantil desempenha um papel crucial na formação da personalidade adulta. Em A Interpretação dos Sonhos (1900), obra que ele considerava sua mais importante, Freud argumentou que os sonhos são a "via régia para o inconsciente", uma realização disfarçada de desejos reprimidos. Ele também investigou como a psicanálise explica os sonhos, os lapsos de linguagem e as piadas, revelando os mecanismos do inconsciente em ação.
Solidão, oposição e exílio
As ideias de Freud foram recebidas com grande resistência. A ênfase na sexualidade infantil e no inconsciente chocou a sociedade vienense do início do século XX. Com o tempo, ele atraiu um círculo de seguidores, mas também enfrentou rupturas dolorosas com discípulos importantes como Carl Jung e Alfred Adler, que desenvolveram suas próprias teorias. A ascensão do nazismo na década de 1930 representou uma ameaça direta. Sendo judeu, Freud tornou-se um alvo. Seus livros foram queimados em praça pública em 1933. Em 1938, após a anexação da Áustria pela Alemanha, ele foi forçado a deixar Viena. Com a ajuda crucial da princesa Marie Bonaparte e do psicanalista Ernest Jones, Freud e sua família conseguiram escapar para Londres.
Os últimos dias de Sigmund Freud
Desde 1923, Sigmund Freud lutava contra um câncer no palato, resultado de seu vício em charutos, dos quais fumava mais de vinte por dia. Ele passou por mais de trinta cirurgias e viveu seus últimos dezesseis anos em dor constante, suportada com dignidade estoica. No exílio em Londres, já debilitado e com o câncer em estágio terminal, ele decidiu que não queria ser atormentado desnecessariamente. Em 21 de setembro de 1939, ele pediu a seu médico e amigo, Max Schur, que cumprisse a promessa de não prolongar seu sofrimento. Com o consentimento de sua filha Anna, Schur administrou doses de morfina que o levaram a um coma. Ele morreu em 23 de setembro de 1939.
O legado de Freud na cultura e na ciência
Amado, odiado, lido e relido, Sigmund Freud não foi apenas um cientista; foi um arqueólogo da alma humana. Ele nos ensinou que há mais em nós do que aquilo que sabemos, que o não dito se manifesta em sintomas e que há beleza no esforço de compreender, ainda que a compreensão total seja inatingível. Seu legado está vivo nos consultórios, na literatura, no cinema e nas conversas cotidianas, presente em termos como "ego", "repressão" e "ato falho". Ele nos deixou a pergunta que ainda ecoa: e se a verdadeira história da humanidade estiver escrita em seus esquecimentos, em seus lapsos e em suas dores mais íntimas?
Curiosidades
Quatro das cinco irmãs de Freud não conseguiram escapar da Áustria. Anos após a morte do irmão em Londres, elas foram capturadas pelos nazistas e enviadas para campos de concentração, onde foram assassinadas. As cinzas de Freud, por sua vez, foram depositadas em uma antiga urna grega, um presente de sua amiga Marie Bonaparte. A urna, que também guarda as cinzas de sua esposa Martha, repousa até hoje no crematório de Golders Green, em Londres, como um símbolo silencioso da fragilidade da vida e da permanência da memória.
Referências
Gay, Peter. Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo. Companhia das Letras, 1989.
Roudinesco, Élisabeth. Sigmund Freud em Seu Tempo e no Nosso. Zahar, 2016.
Britannica, The Editors of Encyclopaedia. "Sigmund Freud". Encyclopædia Britannica, 3 Feb. 2026.
Freud Museum London. "Who was Sigmund Freud?". freud.org.uk.
5nternet Encyclopedia of Philosophy. "Freud, Sigmund". iep.utm.edu.
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