A Insustentável Leveza do Ser (Amado)
- 1 de jan. de 2025
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Existe uma memória que não nos pertence, mas que nos assombra. Uma cicatriz fantasma de um corpo que nunca tivemos. A filosofia antiga deu a ela um nome, o Andrógino. Uma criatura esférica, inteira em si mesma, girando pelo cosmos em uma dança autossuficiente. Éramos, dizem, perfeitos. E a perfeição, como se sabe, é uma afronta aos deuses. Fomos partidos. Desde então, a nossa condição é a da busca. O amor, em sua forma mais crua, é essa arqueologia da alma, essa tentativa desesperada de encontrar, no rosto de outro, o reflexo da metade que nos foi arrancada.
E assim caminhamos, fragmentos em busca de um encaixe que nos devolva a totalidade perdida. Uma fome que nos move, uma sede que nos define. Mas a beleza trágica da nossa condição é que raramente encontramos um encaixe perfeito. Encontramos outros fragmentos, outras almas igualmente quebradas, e na colisão de nossas arestas, algo novo acontece. Às vezes, dor. Às vezes, uma nova forma de inteireza.

O amor tem a sua própria física. Dois corpos, duas massas de história e desejo, criam um campo gravitacional. O tempo se curva. O espaço se contrai. Uma hora se torna um instante. Um dia, uma eternidade. A relatividade de Einstein, despida de seus números, é a linguagem diária de dois amantes. Mas o universo, em sua sabedoria indiferente, nos lembra de uma outra lei, mais silenciosa e implacável. A entropia. A lei que diz que tudo, absolutamente tudo, tende à desordem. Um jardim sem cuidado, uma casa sem limpeza, um amor sem cultivo. A estabilidade é uma ilusão que exige um esforço hercúleo. Ser amado não é um refúgio do caos. É a coragem de construir um abrigo no meio dele, sabendo que a tempestade nunca para de verdade.

Carregamos dentro do crânio um sobrevivente da savana. Um cérebro que aprendeu, ao longo de milênios, que a solidão é a mais fria das mortes. A rejeição, para ele, não é um sentimento. É uma ameaça física. O mesmo alarme que soa para um osso quebrado, soa para um coração partido. Não há metáfora aqui. A dor é real. E esse cérebro, em seu zelo protetor, é um pessimista. Ele se dedica a procurar o que está errado, o predador na moita, a falha no juramento. Uma palavra áspera ecoa mais alto que cinco sinfonias de elogios. É uma matemática injusta, uma herança que nos condena a dar mais peso à ferida do que ao afeto. E no medo de perder, nesse pânico ancestral de ser deixado para trás, forjamos as armas que, ironicamente, destroem o que mais queremos proteger.

Vivemos em um tempo de águas rasas. Um tempo de conexões líquidas, como nos alertou o velho Bauman. Queremos a profundidade do oceano, mas temos medo de nos afogar. Ansiamos pela segurança da âncora, mas nos apavoramos com a ideia de não poder zarpar a qualquer momento. E nesse mercado de afetos, onde as almas são expostas em vitrines digitais, esquecemos uma verdade antiga. O amor não se encontra. O amor se constrói. Tijolo por tijolo, em um canteiro de obras que exige paciência, disciplina e a humildade de admitir que não sabemos nada. Talvez o maior engano seja acreditar que amamos o outro. Talvez, como suspeitava Pessoa, amamos apenas a ideia que criamos dele. E quando a pessoa real, com suas rachaduras e intempéries, ousa se apresentar, o nosso amor sobrevive ao susto?

Mas se o amor é essa aposta tão arriscada, por que insistimos? Por que voltamos a nos sentar à mesa desse jogo de cartas marcadas? Há um segredo que os poetas conhecem. Um segredo que Rumi sussurrou ao mundo. A ferida é o lugar por onde a luz entra. É na falha, na quebra, na crise, que a alma se abre. A dor não é o fim do caminho. É o início. É o colapso do mundo que conhecíamos que nos obriga a imaginar um novo. É a iminência da perda que nos revela o verdadeiro peso da presença. O sofrimento, em sua crueza, é um professor impiedoso, mas justo. Ele nos despe do supérfluo e nos mostra o que, de fato, importa.

No fim, talvez a busca não seja pela metade que nos completa, mas pela coragem de sermos duas metades imperfeitas. Duas almas com suas próprias cicatrizes, suas próprias histórias, que decidem, por um instante ou por uma vida, caminhar lado a lado. O amor, então, deixa de ser a busca pela perfeição e se torna a celebração da imperfeição. A coragem de ser vulnerável. A coragem de lutar contra a entropia. A coragem de dar um salto no escuro, não porque temos certeza do chão, mas porque a possibilidade do voo é mais atraente que a segurança do galho.

Que não seja imortal, posto que é chama, nos ensinou o poeta. Mas que seja infinito enquanto dure. E o infinito não mora na ausência de um fim. Mora na intensidade de cada instante. Na entrega total à chama, mesmo sabendo que um dia, inevitavelmente, ela se tornará cinza. Essa é a nossa condição. Uma busca por conexão em um universo que tende ao caos. Uma aposta teimosa na beleza, mesmo sabendo de sua fragilidade. Uma busca fadada ao fracasso e, ainda assim, a única busca que torna a nossa existência suportável.
Referências (Ser Amado)
Platão – O Banquete (c. 385 a.C.)
Albert Einstein – Teoria da Relatividade Especial (1905) e Teoria da Relatividade Geral (1915)
Rudolf Clausius – Segunda Lei da Termodinâmica (1850)
Naomi Eisenberger, Matthew Lieberman & Kipling Williams – Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion, Science (2003)
John Gottman & Robert Levenson – The Timing of Divorce: Predicting When a Couple Will Divorce Over a 14-Year Period, Journal of Marriage and Family (2000)
Daniel Kahneman & Amos Tversky – Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk, Econometrica (1979)
Zygmunt Bauman – Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (2003)
Erich Fromm – A Arte de Amar (1956)
Fernando Pessoa – Livro do Desassossego (publicação póstuma, 1982)
Jalal ad-Din Rumi – Masnavi (séc. XIII)
Vinicius de Moraes – Soneto de Fidelidade (1946)



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