Não Solte a Minha Mão
- há 2 dias
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O amor não é uma linha reta. É um terreno acidentado, com vales de silêncio e picos de reencontro. E é na travessia que a mão que segura a nossa se revela.

Existem histórias que não são contadas pelo tempo, mas pela coragem. Histórias que florescem não na ausência de inverno, mas na teimosia da primavera que insiste em retornar após a geada. Esta é uma delas.
É uma história sobre mãos. Mãos que se pressentiram em meio à multidão, que se desenharam no vazio de uma cadeira, que se perderam na pressa do mundo e que, exaustas, finalmente se encontraram. Mãos que aprenderam a força não no toque contínuo, mas na memória do calor que deixaram.
O Eco

Num eco de outro tempo, eu te vi. E o mundo, vasto e barulhento, silenciou. Havia uma luz em ti que me chamava, uma canção que minha alma reconhecia. Mas as nossas mãos já tinham outras danças, e a melodia se tornou um sussurro, uma promessa guardada no bolso da alma para um dia que não era aquele.

O tempo, esse escultor impaciente, moveu suas peças. E de repente, éramos dois barcos sem porto, à deriva. O convite para um café era um farol, uma tentativa de guiar teu barco até o meu. Mas a névoa da incerteza era densa, e meu sinal de luz não foi visto. Para ti, meu porto ainda parecia habitado por outros navios. E assim, navegamos para longe um do outro, deixando para trás apenas a marola de um quase-encontro.
A Trilha

A vida é uma trilha sinuosa, cheia de curvas e falsos atalhos. Corremos por ela, às vezes na mesma direção, mas em ritmos diferentes. Em uma dessas corridas, o destino nos fez cruzar. Ouvi meu nome como um chamado, e por um instante, o mundo parou. Mas a trilha era longa, a chegada, urgente. E mais uma vez, o toque se desfez no ar, como poeira na estrada.

Até que, na celebração de uma nova vida, a nossa trilha finalmente convergiu. Em meio ao ruído de uma festa, encontramos o silêncio. E naquele silêncio, conversamos por uma vida inteira. As palavras construíram uma ponte sobre o abismo dos anos, e sobre essa ponte, nossas mãos finalmente se tocaram. O amor, aquela semente antiga, irrompeu, avassalador, como uma flor que rasga o concreto.
A Paisagem

E o que construímos juntos foi uma paisagem. Uma cachoeira de beijos lavando a poeira do tempo. Um nascer do sol na praia, pintando o céu com as cores da nossa certeza. Uma estrada que se desdobrava à nossa frente, onde qualquer destino era lar, desde que a viagem fosse feita a dois. Cada brinde, cada risada, cada momento compartilhado era um novo rio, uma nova montanha, um novo vale nesse mapa que chamamos de “nós”.
A Fissura
Mas nenhuma paisagem é imune à erosão. O amor, por mais forte, não é uma fortaleza inabalável. Ele é um jardim que exige cuidado, e por vezes, a gente se esquece de regar. A vida, com suas tempestades e seus terrenos acidentados, abre fissuras. O medo, os fantasmas do passado, as palavras não ditas e as que foram ditas sem pensar... tudo isso se infiltra, silenciosamente, e o que era rocha começa a rachar.
Nem sempre somos a nossa melhor versão. Cometemos erros, mesmo com a intenção genuína de acertar. Ferimos, mesmo amando. E o silêncio, às vezes, se torna um abismo maior do que qualquer distância física. A mão que antes era um porto seguro, de repente, parece hesitar. E a dúvida se instala como uma névoa fria, nos fazendo questionar se o caminho ainda é o mesmo.
Não Solte a Minha Mão

É nesse terreno acidentado que o verdadeiro teste acontece. É quando a paisagem está coberta pela névoa que a gente mais precisa do toque, da âncora, da promessa.
Nossas mãos, que levaram uma vida para se encontrar, agora carregam o peso das nossas imperfeições. Elas carregam as cicatrizes das batalhas que travamos, juntos e separados. Mas elas também carregam a memória do primeiro olhar, a força do reencontro, a beleza da paisagem que criamos.
Hoje, eu não te peço a perfeição. Eu te peço a presença. Eu te peço a coragem de atravessar o inverno, de consertar as fissuras, de lembrar da primavera que sempre volta.
Porque o amor não é sobre nunca errar. É sobre, apesar de todos os erros, escolher ficar. É sobre olhar para a mão que está ao seu lado, com todas as suas falhas e medos, e ainda assim, com toda a força da sua alma, decidir não soltar.
Não solte a minha mão. Por favor, não solte a minha mão.


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